ALAGOAS 200 ANOS

Oficialmente, Alagoas passou a existir como ente politicamente autônomo em 16 de setembro de 1817. Mas a história alagoana começa muito antes, desde o início da colonização, por volta do ano de 1580, quando – por exemplo – as notícias sobre a existência dos primeiros assentamentos do que viria a ser o poderoso Quilombo dos Palmares comprovaram algo distinto ao Sul da Nova Lusitânia (ou Pernambuco). Outro fato diferenciador foi a polêmica opção de Domingos Calabar, reafirmando que na terra das (a)lagoas a banda tocava de outra forma.  

Com a chegada do Bicentenário da Emancipação Política de Alagoas, este portal tem a missão de coletar, aprofundar e divulgar informações sobre o Estado, seu povo e sua longa história, sobre a cultura, os saberes e sabores, as cores, as melodias, as letras em prosa e verso, as artes todas, todos os tons de Alagoas.

Com base nos 200 anos de existência oficial, comemoramos ainda mais séculos de existência real da alagoanidade. Todo 2017 está sendo palco de uma programação que se estende, como disse o governador Renan Filho, "de réveillon a réveillon", ou seja: da zero hora de 1º de janeiro à meia-noite de 31 de dezembro, este é o ano para se mergulhar, de conhecer profunda e detalhadamente as Alagoas.

 

Pode entrar. Sinta-se em casa. 

Discursos sobre o Fórum do Bicentenário de Alagoas

Jayme Lustosa de Altavila

Presidente do IHGAL

Senhoras e senhores:

É com satisfação que o Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, instituição cultural mais antiga em atividade no Estado de Alagoas, visto que estaremos se Deus quiser, em 2 de dezembro próximo comemorando, 147 anos de fundação, que recebemos as dignas autoridades para um encontro o qual tratará sobre as providências a serem promovidas pelo Governo do Estado, a fim de se comemorar em 2017, os 200 anos da Emancipação Política do Estado de Alagoas, pois em 16 de setembro de 1817 na cidade do Rio de Janeiro, D. João VI assinou a Carta Régia que a Comarca da Capitania de Pernambuco, cujo o texto do Decreto e não Alvará, como alguns denominam – D. João VI concedeu a independência política das Alagoas.

Nele, cuja grafia original conservamos, por um lapso vem grafado Província das Alagoas em lugar de Comarca das Alagoas, podendo-se ainda observar, que o nome de Sebastião Francisco de Melo e Póvoas não vem consignado completo.

Outro fato alusivo ao nome de Alagoas, que era Província das Alagoas, em virtude das lagoas existentes em nossa terra, mudado por uma lacuna do copista, ou por erro injustificável, quando deveria ser, em harmonia com sua origem Estados Das Alagoas.

Sr. Governador:

Recebemos, repito, essa escolha para sediar esse encontro, como um reconhecimento do Governo do Estado, ao trabalho que a Casa da Memória das Alagoas, vem realizando nestes mais de 146 anos de atividade, e que tem recebido dentro das possibilidades, o apoio as nossas iniciativas e atividades de preservação do patrimônio cultural das Alagoas.

Agradecemos desde já por esta deferência!

Destaco que passei às mãos de V. Exa. a cópia do Diário Oficial do Estado, de 16 de setembro de 1917, o qual encontrei entre os documentos deixados por meu pai, o historiador Jayme de Altavila Melo (Jayme de Altavila) o qual traz na página cinco a publicação do programa das “festas comemorativas do Centenário da Emancipação Política de Alagoas a se realizarem nos dias 15, 16 e 17 de setembro corrente”, e que na noite de 16 de setembro “às 20 horas, em ponto, sessão solene do Instituto Archeológico e Geográfico Alagoano e da Comissão Central para as festas do Centenário, no Theatro Deodoro”. Como veem as senhoras e os senhores há 100 passados, o Instituto se irmanava a esta comemoração histórica.

E nesta oportunidade, ressaltamos a importância quanto às providências a serem estabelecidas para as referidas comemorações pelo Governo do Estado.

E o Instituto Histórico, não poderia deixar de se associar nesta realização pela importância deste acontecimento.

Temos, senhoras e senhores, Senhor Governador, sem falsa modéstia, algo a oferecer a Comissão Mista, instituída pelo Governador do Estado; pois em nosso Setor de Documentos, nos seus mais de 3.900 documentos, cujo material tombado, catalogado e microfilmado e contendo ainda um catálogo publicado, retrata com certeza através destes documentos, um testemunho autêntico destes 200 anos de história.

Nossa Revista, mais que centenária, cuja publicação inicial foi em 1872, expõe através dos anos trabalhos primorosos da história de nossa Província e Estado, e que também possui publicado um catálogo com índice analítico dos trabalhos apresentados pelos intelectuais alagoanos como: Thomaz do Bomfim Espíndola, Moreno Brandão, Ladislau Neto, Jorge de Lima, Manoel Diégues Júnior, José Alexandre Passos, Théo Brandão, João Craveiro Costa, Jayme de Altavila, Abelardo Duarte, Félix Lima Júnior, Dias Cabral, Manoel Moreira e Silva, e tantos outros que contribuíram para o engrandecimento cultural de nossa terra e que de acordo com o consócio e historiador Moacir Medeiros de Sant’Ana esta revista “é o mais antigo órgão da imprensa alagoana em circulação”. Pois vem durante toda sua existência, de mais de um século, divulgando documentos de interesse para nossa história e trabalhos de apreço acerca de vultos e fatos de Alagoas.

Em nossa Hemeroteca, temos 85 títulos de jornais raros, retratando a nossa história. Em nossa biblioteca, mais precisamente no Setor de Obras Raras, temos algumas preciosidades.

Quanto ao nosso Museu, histórico, etnográfico e arqueológico, possuímos um valioso documentário histórico da Guerra do Paraguai, como também objetos usados em antigos cultos africanos que constituem desde 1950, a denominada Coleção Perseverança. Peças de antigas fortificações da dominação holandesa, encontradas em escavações em Porto Calvo e Paripueira, pertences militares dos presidentes Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, armas do tempo dos bandeirantes, objetos do tempo da escravidão, como um pilão de pedra encontrado na Serra da Barriga, doado pelo Dr. Manoel Gomes de Barros. Única peça existente em Alagoas.

Nossa Pinacoteca, possui telas raras dos pintores Rosalvo Ribeiro, De Angelis, Virgílio Maurício, Lourenço Peixoto, José Paulino, Zaluar Sant’Ana, Pierre Chalita, entre outros, como estas telas expostas neste Salão Nobre, como a tela de Theodoro Braga, do ano de 1917, retratando o Padre Antônio Vieira, na catequese das tribos da Ilha de Marajó, em 1657, reproduzida pela Enciclopédia Barsa, e pela TV Portuguesa. Cito, ainda, a tela de Vienot e Morisset, expondo a figura de Cincinato Pinto e as demais oriundas de Belém do Pará, do pintor Franco Sá, doadas pelo Consócio Jonas Montenegro.

Enfim, Sr. Governador, e dignas autoridades, senhoras e senhores convidados: li a pouco tempo nos jornais de nossa terra, afirmações em editoriais distorcendo fatos históricos ao seu bel-prazer e admitindo que: “continuamos atrelados à monocultura canavieira e a pecuária e por isso nada temos a comemorar”.

Denegrir o que foi conseguido com tanto sacrifício é querer menosprezar a inteligência e a capacidade de raciocínio de estudiosos e pesquisadores da história alagoana.

Temos sim que reverenciar!

O esforço do Ouvidor Batalha em criar um governo provisório e o desmembramento da Comarca da Jurisdição da Capitania de Pernambuco, possibilitando a futura emancipação da sujeição da Capitania de Pernambuco.

Temos sim que comemorar!

O decreto de D. João VI, de 16 de setembro de 1817, que emancipou politicamente a Comarca das Alagoas, de Pernambuco, e o fez em face de um fator econômico que se impunha à Coroa, e não obra do agradecimento à Comarca.

Temos sim que comemorar!

O exemplo da mulher alagoana, honesta e patriótica através dos vultos de Ana Lins e Rosa da Fonseca, as quais sacrificaram seus filhos, sua família, sua liberdade em defesa de nossa terra e de nosso país.

Temos sim que comemorar!

Os exemplos de honradez e de honestidade dos Presidentes alagoanos: Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto.

Temos sim que comemorar!

O exemplo de liberdade dado pelo Quilombo dos Palmares.

Temos sim que comemorar!

Pela posição assumida por Calabar.

Temos sim que comemorar!

Os exemplos de cultura, inteligência e capacidade, de alagoanos que se sobressaíram no cenário nacional e além-fronteiras como: Tavares Bastos, Ladislau Neto, Dias Cabral, José Alexandre Passos, Graciliano Ramos, Jorge de Lima, Manuel Diégues Júnior, Raul Lima, Moreno Brandão, Jayme de Altavila, Osman Loureiro, Demócrito Gracindo, Guedes de Miranda, Abelardo Duarte, Pontes de Miranda, Aurélio Buarque de Holanda, Nise da Silveira, Teotônio Vilela e tantos outros que me fogem da memória neste instante.

Alagoas é viável!

Teve e tem um passado que merece o respeito e a consideração de todos. Falada, comentada, criticada, mas ninguém pode negar que foi desta terra que partiram vultos que construíram essa Nação.

Nós, alagoanos, estamos coerentes com o historiador conterrâneo Thomaz do Bomfim Espíndola – nosso inesquecível percursor, pois ele nos legou, como estímulo, esta advertência inapagável:

 - “Nada por sem dúvida é mais censurável do que conhecer o homem e a sociedade em que vive, a terra em que pisa, ou em que viu a primeira luz do mundo, - a história dessa sociedade e desta terra.”

Senhoras e senhores:

Agradeço a consideração que tiveram em me ouvir, e a todos o meu sincero agradecimento.

Renan Filho

Governador de Alagoas

Minhas senhoras e meus senhores:

Inicialmente quero prestar minha homenagem, como governador e cidadão, a esta veneranda Casa, nossa anfitriã, que nos acolhe esta noite para o lançamento do Fórum Estadual do Bicentenário da Emancipação Política de Alagoas.

Sei que não exagero ao afirmar que estamos aqui, no Instituto Histórico, para fazer História.

O lançamento do Fórum e seu trabalho, junto com a Comissão Especial, têm esse significado e este propósito positivamente ambicioso: fazer História.

Ao contrário do que se costuma pensar, a História não tem começo e fim lá atrás, no passado. Ela também começa hoje e continua amanhã.

O que estamos começando a discutir, pensar e organizar, a partir de agora e durante o próximo ano e meio, é trazer a História de Alagoas pra mais perto do homem comum do povo, do pai de família, da mulher trabalhadora, das nossas crianças e jovens, e também dos mais antigos.

É uma missão nobre e construtiva, à altura das tradições do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, esta honorável instituição que foi simbolicamente escolhida para o anúncio e início da nossa caminhada rumo a 16 de setembro de 2017.

Queremos e vamos dar à História de Alagoas a sua verdadeira dimensão e importância como algo vivo, humano, útil, a melhor ferramenta para nosso povo se conhecer, descobrir suas origens, chorar suas desgraças, celebrar suas vitórias e avanços.

A maior utilidade da História, já disse alguém, é ser o espelho da vida: a experiência nos instrui; os exemplos corrigem.

Ela é, por assim dizer, o relato desta grande aventura de tentativa e erro da humanidade para aprender com os tropeços, aproveitar os acertos, construir o conhecimento e consagrar cada triunfo do processo civilizatório.

Queremos que a História de Alagoas seja a narrativa fiel de como chegamos aqui, para que tenhamos um bom ponto de partida. Porque pretendemos ainda mais que isso.

Pretendemos que a História de Alagoas seja entendida, compreendida e utilizada para tornar melhor a vida neste pedaço belo e generoso do Brasil.

É assim que a comemoração dos 200 anos da Emancipação poderá cumprir o papel importante que lhe cabe, para além do marco histórico, da festa e da efeméride.

Temos a responsabilidade de nos debruçar sobre o passado e separar as coisas da forma mais objetiva e honesta possível: os fatos aqui; a imaginação ali; a lenda acolá. Cada qual tem a sua beleza – mas os fatos têm que vir na frente. A imaginação e a lenda derivam deles.

Minhas amigas, meus amigos:

Alagoas tem uma história muito mais antiga do que as duas centenas de anos desde que foi apartada de Pernambuco e tornou-se província emancipada.

A saga desta terra, os fatos históricos aqui ocorridos, os vultos humanos que protagonizaram esses fatos, e as consequências deles para o Nordeste e o Brasil – não cabem em 200 anos. Eles vêm de muito antes.

A terra e a gente alagoana já possuíam personalidade própria e distinta. Já tinham muito o que contar em 1817. Isto aqui foi o chão de Calabar e Zumbi; essas praias caetés combateram o descobridor – que na verdade era o invasor – até quando ele veio de batina!

Aqui o clamor por liberdade não se limitou a gritos simbólicos ou canetadas.

No Sul e na Corte Imperial, o abolicionismo foi um belo movimento das elites, e deu até bons poemas. Aqui não, aqui foi luta, e começou bem antes.

Este chão foi adubado com muito sangue do negro e do índio que lutaram pra não serem cativos.

Foi adubado também com sangue do português colonizador e do holandês invasor, que nos anos 1600 desceu de Pernambuco, saiu povoando a terra de Norte a Sul, de Porto Calvo a Coruripe, e nos deixou de herança sobrenomes que estão aí até hoje, como Wanderley, Omena e outros, inclusive os que adotaram como sobrenome o próprio país dos ancestrais, Holanda. E nos deixaram também como boa herança, no nosso semiárido, esse tipo humano único, o “galego sertanejo”, vermelhão e rijo, trabalhador, inteligente, “pau pra toda obra”.

Em 1910, quase três séculos depois de Nassau, algum tataraneto do tataraneto dos Holanda fez nascer no Passo do Camaragibe um menino que viria a ser mestre, o Mestre Aurélio.

Outro tronco dos Holanda, migrado para São Paulo, mas com raízes fincadas aqui nas Alagoas, gerou Sérgio, escritor e historiador, talvez o melhor estudioso da gente e da alma brasileira, e pai de uma prole de artistas que inclui o nosso poeta maior, Chico Buarque.

Sérgio Buarque de Holanda, autor de Raízes do Brasil, obra definitiva, ensina logo no início: “A História não é prisão ao passado. Ela é mudança, é movimento, é transformação”.

Como disse, minhas amigas e meus amigos, Alagoas tem muito o que contar, antes e depois de 1817.

É nosso dever aproveitar o Bicentenário da Emancipação para fazer essa história chegar aos alagoanos, porque, afinal, no futuro eles serão os personagens dela.

Por isso, devemos desde o primeiro momento eleger a escola como principal ponto concentrador e irradiador de todo o programa de comemoração dos 200 anos da Emancipação.

Escola pública e escola privada, uma união de vontades ampla, congregando cultura e educação; cidadania e academia; o empreendedor e o voluntariado, as igrejas e as ONGs, os Poderes públicos e as instituições, a imprensa e as redes sociais.

Todos são bem-vindos porque a causa comum é o bom combate, é levar conhecimento histórico à população, provocar a reflexão e o debate mais amplo possível, em todas as camadas sociais e faixas etárias.

E aqui cabe uma conclamação aos nossos historiadores – e nós em Alagoas os temos em quantidade, renomados, respeitados, com produção acadêmica e literária robusta.

Conclamação, não: desafio, e dos bons:

– Como fazer os nossos jovens e nossas crianças se interessarem mais pela História?

Penso que um bom começo seria se os próprios historiadores se dispusessem a contar como é que eles foram atraídos pela História.

Os exemplos vivos, a experiência de quem provou e gostou, certamente podem animar muitos estudantes a viajar por esse universo fascinante.

Não é pedir muito. Não se trata de converter estudantes em futuros historiadores, embora até isso seja possível. Mas já seria um avanço se eles ficarem inclinados a gostar da História.

Penso que é preciso enfrentar e desmistificar a aversão crônica que boa parte do alunado tem à disciplina História, seja a do Brasil ou a Geral.

“Não gosto de História porque tem muito nome e data, um monte de coisas que eu não vou usar pra nada”. (O mesmo estigma recai sobre a Geografia).

“Eu não tenho interesse porque nenhum concurso tem prova de História”.

Ou então a sentença clássica, fatal: “História é decoreba”. Essa serve para o bem e para o mal.

Se quisermos superar esses conceitos, ou melhor, esses preconceitos antigos que anulam a importância da História, temos que nos perguntar: por que existe a convicção de que estudar História se resume a decorar nomes, datas e eventos?

E mais:

– Por que isso é tão penoso e chato para o estudante?

Se me permitem um palpite, penso que é porque o relato da História, o ensino dela como disciplina para prova, sempre foi chato mesmo.

E vejam só, que curioso: a pessoa, desde criança, decora outras coisas com a maior facilidade. Quer dizer: o problema não é decorar.

Uma música, uma poesia, qualquer pessoa decora fácil. Basta gostar.

A gente aprende a letra da música porque acha bonita, porque ela nos fala de perto. Assim é também com a poesia. Música, poesia, é uma história que fica envolvente, bem contada, com prazer, graça e estilo. Ela fica na memória, permanece viva na alma e no coração.

A História também pode ser envolvente. Se ela é bem narrada, se é ensinada com atenção para sua beleza e para seus resultados no presente, não precisa esforço para decorar: ela entra sozinha na memória da pessoa. Entra sem bater, e fica ali, guardada e viva.

Ao contrário, se a História é relatada a seco, apenas datas, nomes e eventos, ela não fica. Ou pode até ficar, mas é como se estivesse morta. É a decoreba.  Igual a uma música chata que é bombardeada no rádio e na TV o dia inteiro. Ou um jingle comercial insistente. A gente se surpreende assoviando o maldito jingle, ou quando percebe que sem querer decorou a música chata.

Minhas queridas amigas, meus caros amigos,

Um dos maiores vultos da Humanidade, o tribuno romano Marco Túlio Cícero, há mais de dois mil anos resumiu o que eu gostaria de dizer: “A História é testemunha do passado, luz da verdade, vida da memória, mestra da vida, anunciadora dos tempos antigos”.

Alagoas tem uma bela história, que precisa ser contada.

Ou melhor, ela precisa ser descoberta e revelada, porque muita gente não sabe dela. Quando este povo souber e conhecer, vai gostar, vai guardar na lembrança e vai sentir aquilo que Olavo Bilac pediu às crianças: “Ama com fé e orgulho a terra em que nasceste”.

Acredito firmemente que a forma mais eficiente de disseminar a nossa História é através das artes. É a forma mais eficiente porque é a mais bela, é a maneira mais prazerosa de transmitir informação e ganhar conhecimento.

O cinema, o teatro de palco ou de rua, a dança, a cantoria nas feiras, a música em geral, o carnaval e os folguedos populares, as artes gráficas, o cordel, a literatura, a poesia, a arte popular e também e chamada arte erudita, ao longo dos séculos têm sido intérpretes e contadoras da História.

Érico Veríssimo, nos três volumes do épico “O Tempo e o Vento”, romanceou a história rica, dramática e heroica do Rio Grande do Sul, sem renunciar ao relato histórico, fiel aos fatos e com uma beleza narrativa que cativou multidões. O povo gaúcho, graças à contribuição da literatura e de várias outras formas de arte, é cioso e orgulhoso de seu passado, de suas tradições e de sua cultura.

João Ubaldo Ribeiro, no belíssimo “Viva o Povo Brasileiro”, concentrou em um pequeno universo, a Ilha de Itaparica, quatrocentos anos da História da Bahia, que se confunde com a própria História do Brasil. É considerado o grande romance brasileiro dos anos 80 e 90. É por essas e outras que o povo baiano chega a ser exagerado na autoestima.

O povo pernambucano também é assim. E olhem que Pernambuco perdeu o filé de suas terras, justamente este pedaço do Brasil em que vivemos e que há quase 199 anos se chama Alagoas.

 A literatura, o cinema e todas as artes cênicas, a história em quadrinhos, a pintura clássica, sacra, impressionista, abstrata, naturalista, em tela ou mural; o desenho, a charge e a caricatura, tudo isso é uma grande reportagem sobre a vida do Homem sobre a Terra.

Todas as formas lúdicas de expressão do sentimento humano contam a história dos povos ao redor do mundo e ao longo do tempo. Isso vem desde a arte rupestre nas paredes das cavernas.

Alagoas, repito, tem história pra contar. E tem belas maneiras de disseminar esse conhecimento histórico.

Vamos motivar os nossos artistas a exercitar sua criação com um olhar atento e generoso sobre impressionantes figuras humanas que fazem parte de Alagoas, como Ganga Zumba e Calabar, a revolucionária Ana Lins, quase desconhecida, e seu filho o Visconde de Sinimbu; Tavares Bastos e Melo Moraes; o maestro Heckel Tavares, Jorge de Lima e o grande Jararaca; o tenente Lucena Maranhão e o cangaceiro Corisco, nascido em Pariconha; o Major Bonifácio, Rás Gonguila e o Moleque Namorador; Hermeto e Djavan; Jofre Soares e Paulo Gracindo, Guimarães Passos e Mestre Aurélio; Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto e Teotônio Vilela – é tanta gente de valor que não dá vontade de parar.  

Um povo que conhece suas glórias e os feitos heroicos dos antepassados, as lutas e vitórias que construíram sua trajetória, é um povo que tem amor-próprio; o indivíduo gosta de ser filho do lugar, olha os outros de cabeça erguida e se sente cidadão.

É isto que pretendemos despertar com a programação do Bicentenário.

É difícil? Pode ser. Mas gosto de lembrar Nelson Mandela quando foi eleito presidente de seu país depois de 27 anos preso: “Sempre parece impossível até que seja feito”. 

O Fórum foi criado para agregar a sociedade no planejamento, na definição e no acompanhamento da execução de todos os projetos dos 200 anos da Emancipação. Em princípio, o Fórum não tem número limitado de participantes, e será estimulado a alcançar todos os campos do conhecimento e todas as camadas sociais de Alagoas.

Como já disse o secretário Fábio Farias, o Fórum terá um ritmo cotidiano para desenvolver seus trabalhos via internet, através de seu Portal e de redes sociais específicas.

Quero adiantar que o Governo do Estado vai colocar no Orçamento de 2017 uma rubrica especialmente voltada para investimento no programa dos 200 anos da Emancipação, e apelará para que os outros Poderes também o façam.

E faço questão de ressaltar aqui, junto com o nosso sincero reconhecimento e agradecimento, que tanto os membros do Fórum quanto os da Comissão Especial não recebem qualquer tipo de remuneração; são voluntários que estão doando sua inteligência e seu trabalho para o bem de Alagoas.

Junto com a nossa gratidão, fiquem certos de que nós vamos explorá-los enquanto pudermos, mas prometemos não abusar da sua generosidade e boa-vontade. É que Alagoas espera muito de todos vocês, e precisa muito de cada um.

Seus nomes, pela relevância do trabalho individual que têm feito, foram os primeiros a serem lembrados e convidados. E suas opiniões darão a largada nesse processo de proximidade e transparência. Trata-se de algo novo em Alagoas, e por isso a sua experiência vai nos ajudar muito.

Vamos ao trabalho. Que Deus abençoe Alagoas.

Muito obrigado.

Fábio Farias

Secretário do Gabinete Civil

Senhoras e senhores, boa noite.

Em primeiro lugar, agradeço ao presidente Jayme de Altavila a cessão dos salões do Instituto Histórico de Alagoas para esta reunião.

A Comissão do Bicentenário da Emancipação Política de Alagoas escolheu este local exatamente por aqui estar a mais antiga instituição cultural não-governamental de nosso Estado.

Aqui estão reunidas peças que contam a história alagoana desde muito antes de 16 de setembro de 1817. Desde o acervo indígena, dos primitivos habitantes da Terra das Alagoas, até aos primeiros jornais a circular nessas ruas, passando pelos testemunhos da presença holandesa, pelas medalhas e demais troféus conquistados por personalidades alagoanas, pela riqueza documental aqui reunida, sem falar no testemunho eloquente de fatos como o “Quebra”, dos polêmicos cofres provinciais – enfim, o caleidoscópio mais completo da trajetória do povo que habita este belíssimo pedaço de Brasil.

Não haveria, portanto, lugar mais indicado para ser anunciado o Fórum do Bicentenário da Emancipação Política de Alagoas.

Sabemos que a história da sociedade alagoana inicia muito antes de 1817, e os traços dessa personalidade marcante, própria, podem ser identificados facilmente em acontecimentos como a epopeia do Quilombo dos Palmares, cujo epicentro se deu na nossa Serra da Barriga. Assim como em terras do hoje Estado de Alagoas se situaram os principais mocambos desta que é a principal experiência de comunidade resistente à escravidão nas Américas.

Aqui também fez época o posicionamento divergente no início do processo de presença holandesa no Nordeste, com a controversa postura adotada por Domingos Fernandes Calabar, em 1632, assim como nas nossas praias afundou a nau Nossa Senhora da Ajuda, acidente que resultou no incidente que vitimou o bispo Dom Pero Fernandes Sardinha, cuja culpa foi atirada contra os índios caetés, isto ainda em 1556. Não são poucos os historiadores que consideram esses dois fatos objetos de viva polêmica e de estudos mais profundos.

Temos, portanto, muita história para pesquisar antes de continuar a contá-las. Isto só para falar do tempo anterior à Emancipação.

E este é o momento para se debruçar sobre todo este acervo, em busca das raízes mais profundas e reavivar, fortalecer, o amor-próprio da população alagoana.

Neste sentido o Governador Renan Filho determinou a formação da Comissão Especial para o Bicentenário da Emancipação Política de Alagoas, e dela a criação deste Fórum. Quais as diferenças entre as duas formatações?

A Comissão é formada por pessoas jurídicas, instituições governamentais e não-governamentais, tem um número de integrantes definido e terá a missão de coordenar a execução dos trabalhos do Bicentenário da Emancipação.

O Fórum é constituído por entidades e personalidades que queiram contribuir com o programa de realizações em torno do Bicentenário da Emancipação Política de Alagoas. Não tem, a princípio, um número limitado de membros, e o grosso das proposições será coletado através das redes sociais, embora reuniões presenciais venham a ser realizadas.

Este será o principal cadeirão no qual fervilharão as ideias, enquanto a Comissão cuidará de organizar e viabilizar esse processo produtivo.

A internet será o canal privilegiado para os debates no Fórum. E a primeira rede social a ser utilizada nesse trabalho é o Facebbok, ferramenta que contará, a partir de amanhã, com um grupo específico disponível para nosso trabalho.

A ficha de adesão que está com cada um de vocês é o primeiro passo. Através dela coletaremos os principais contatos, como telefone, e-mail, Whatsapp e tudo mais que venha a garantir a pluralidade e o fluxo mais eficiente das propostas e opiniões sobre o tema.

Por favor, não deixe de preencher sua ficha.

Por determinação do Governador Renan Filho, independente da quantidade de recursos que o governo de Alagoas possa disponibilizar para este acontecimento, o eixo não será apenas o evento localizado, ocasional, por mais marcante que possa vir a ser.

O eixo das comemorações pelos 200 anos da Emancipação Política de Alagoas extrapolará o vetor tradicionalmente cultural, e o centro será essencialmente educacional, cidadão. Privilegiaremos a participação da sociedade e, particularmente, das instituições de ensino, e de pesquisa, em todos os níveis.

Consideraremos sim, os marcos físicos. Mas ao monumento preferiremos o livro. Tentaremos fazer os dois, porém mais este que aquele. Optaremos por mais seminários, mais cursos, mais aulas.

Buscaremos ofertar circuitos de apresentações artísticas e culturais por todo Estado, ao invés de centrar num único grande espetáculo numa grande cidade.

O governo, através da Comissão para o Bicentenário, vai funcionar como um facilitador entre os Poderes Públicos, setor produtivo e academia para que as muitas histórias das Alagoas, em seus diversos setores econômicos e segmentos sociais possam ser reunidas, escritas e disponibilizadas para toda a comunidade.

Estas são as ideias centrais, sobre as quais o Governador Renan Filho falará em seguida.

Por falar em apresentações artísticas, encerraremos este ato com uma “canja” do violonista Fernando Melo, conhecido por sua obra no Duo Fel.

Fernando Melo, que hoje nos é trazido pela Secretaria de Estado da Cultura, é um dos talentos alagoanos mais conhecidos no Brasil e no mundo, um astro da magnitude de Hemeto Pascoal ou Djavan. Nativo de Arapiraca, é exemplo vivo e atuante da excelência universal da produção artística alagoana.

Com satisfação, convidamos os senhores e as senhoras aqui presentes para se incorporarem ao Fórum para o Bicentenário da Emancipação Política de Alagoas.

Devo dizer que personalidades alagoanas, moradoras em outros Estados, igualmente serão convidadas para se engajarem nesse processo, o que, como dito antes, terá na internet os instrumentos de participação e interação mais eficientes à disposição de todos.

Construiremos juntos à agenda de comemorações pelo bicentenário de nossa emancipação. Faremos isto com transparência, proximidade e racionalidade.

Muito obrigado.