07/10/2017 12h36 | Por: Hyérica Santiago

Rua do Comércio e o desenvolvimento do Centro de Maceió

Ao historiar sobre a Rua do comércio, Félix Lima Júnior em Memórias e Minha Rua, informa que ela começava no Largo dos Martírios

Texto de: Ticianeli - História de Alagoas
Rua Do Comercio 02

No início do século XIX, Maceió era apenas um pequeno povoado que fazia parte da freguesia de Santa Luzia do Norte e tinha o privilégio de ter um dos melhores portos da região. Mais quatro outros pequenos povoados completavam a freguesia: Trapiche, Jaraguá, Poço, Mutange e Bebedouro.

São os caminhos para este porto, utilizados pelos tropeiros e seus animais de carga, que naturalmente vão desenhando as melhores vias de acesso ao litoral. O próprio engenho que deu origem ao primeiro núcleo urbano de Maceió, situado onde hoje está a Praça D. Pedro II, ocupava uma área muito próxima do que viria a ser o porto de Jaraguá. A estrada de Bebedouro, Largo dos Martírios, Rua do Comércio, Praça D. Pedro II e Boca de Maceió (hoje Praça dos Palmares, ao que tudo indica, compunham esse caminho inicial.

Essa ligação entre o Largo dos Martírios e a Boca de Maceió foi reforçada, no início do século XIX, com duas ruas paralelas à Rua do Comércio. A Rua Boa Vista e a Rua do Sol consolidam a ideia de que os primeiros arruados tinham a mesma função econômica inicial da estrada que deu origem à Rua do Comércio. Em um polo estava a Praça dos Martírios e proximidades, que recebia as mercadorias pela Lagoa do Norte (Mundaú) e pela estrada de Bebedouro, além do acesso aos engenhos do vale do Rio Mundaú e à navegação até a Vila de Alagoas (Marechal Deodoro. No outro polo estavam o pátio da Capela (Praça D. Pedro II) e a Boca de Maceió, áreas por onde se chegava ao porto de Jaraguá e à região norte da província.

Rua Do Comercio
Rua Do Comercio

O primeiro centro social, o coração do povoado como definiu Craveiro Costa, se formou naturalmente no pátio da Capela, onde se localizava a sede da Ouvidoria. O Ouvidor era a maior autoridade do povoado de Maceió, que ainda mantinha as ruas nos traçados primitivos, com casas geminadas e lotes irregulares. Essa é a situação encontrada pelo primeiro presidente da província, Sebastião Francisco de Mello e Póvoas, quando aqui desembarcou em 1019.

Esta disposição urbana está registrada em uma planta de Maceió de José da Silva Pinto, de 1820, elaborada por ordem do presidente da província. É esta planta que será utilizada em 1841 pelo engenheiro Carlos de Monay para o primeiro esboço de planejamento urbano de Maceió que se tem conhecimento.

Outra tentativa de se ter plano urbanístico para Maceió só volta a acontecer em 1868, quando o presidente da Província, José Bento Júnior, apresentou o Plano de Remodelação. As ações deste plano aconteceram entre 1868 e 1871, contemplando a capital e toda a província.

Nesse período, as ruas de Maceió viviam praticamente na escuridão, com uma iluminação pública precária. Henrique Marques d’Oliveira Lisboa, presidente da província em 1845, relatava à Assembleia que a capital era iluminada por 18 lampiões sob a responsabilidade do padre Joaquim José Domingues da Silva. Mesmo reconhecendo que a iluminação era insuficiente, o governante explicava que não proporia o aumento porque reconhecia que “esta despesa é agora incompatível com o estado das finanças”.

Rua Do Comercio Nos Anos 30
Rua Do Comercio Nos Anos 30

Outro problema importante para a Maceió de 1845 era o abastecimento de água potável. Para fornecer água de melhor qualidade, o governo de então fez publicar a lei que concedia exclusividade por 30 ou 50 anos ao indivíduo ou companhia que quisesse explorar os chafarizes da capital. O investidor teria que fazer o encanamento das águas do Riacho Bebedouro ou Riacho Jacarecica para Maceió, estendendo-se até a povoação de Jaraguá. Essa obra demorou décadas para ser concluída.

Emergencialmente, naquele ano se discutiu a possibilidade de aproveitamento da água potável da Cambona, construindo um pequeno chafariz, “que sem dúvida fornecerá a água suficiente para o público desta capital”.

Em meados do século XIX, quando Maceió já era a capital da capitania de Alagoas, suas principais vias eram a Rua do Comércio, Rua Boa Vista e Rua do Sol. Em direção ao sul, dois arruados também já estavam bem habitados: a hoje Rua do Livramento e a Rua Nova (Barão de Penedo), que ligavam respectivamente a Rua do Comércio e a Boca de Maceió ao Largo da Cotinguiba (hoje Praça Deodoro).

Rua Do Comercio Dos Anos 40
Rua Do Comercio Dos Anos 40

Rua do Comércio

Ao historiar sobre a Rua do Comércio, Félix Lima Júnior em Memórias e Minha Rua, informa que ela começava no Largo dos Martírios, então conhecido como Atalaia, por ser o local onde os comerciantes esperavam os almocreves com as mercadorias daquele município, confirmando a sua função de entreposto comercial.

Talvez por ser a via mais utilizada do povoado, na Rua do Comércio foram se instalando as principais lojas comerciais e escritórios de serviços da vila. Em 1831, quando o presidente da província de Alagoas, o paraibano Manoel Lobo de Miranda Henriques, instalou a primeira tipografia em Maceió, A Patriótica, o fez na Rua do Comércio, nº 6, após ter ficado um breve período na Rua do Livramento, nº 3.

O primeiro grande investimento feito na Rua do Comércio foi a sua pavimentação em 1854, no governo de Antônio Coelho de Sá e Albuquerque, obra realizada “sob a direção científica” do engenheiro Pedro José de Azevedo Schamback. O sistema adotado foi o de pavimentação Macadam – camadas de brita com cobertura de cascalho fino sob compactação.

Sá e Albuquerque informa ainda que foram calçados 120 palmos e construídos 421 palmos de valetas laterais, mas, por falta de “instrumentos convenientes” (provavelmente o rolo compactador), “o calçamento ficou muito defeituoso”, o que levou o governante suspender a obra alegando que era muito dispendiosa.

Em 1857, o mesmo Sá e Albuquerque manifesta interesse em melhorar a pavimentação da Rua do Comércio, “a mais frequentada desta capital”, e nomeia uma comissão para contratar operários, instrumentos e materiais para a obra.

A iluminação pública de Maceió foi melhorada a partir de 1858 com a utilização de “gás líquido hidrogênio” nos agora 100 lampiões, cada um deles equivalente a cinco velas de cera. A empresa contratada teria que estender a iluminação até Jaraguá. Mesmo com ampliação, o presidente da província, Angelo Thomaz Amaral, considerava que esse serviço ainda era insuficiente para uma população de 10.568 habitantes, dos quais 2.110 eram escravos.

Rua Do Comercio Nos Anos 50
Rua Do Comercio Nos Anos 50

A Rua do Commercio, como registrava a grafia da época, não demorou a ser vítima das políticas de homenagens a personalidades públicas do Conselho da Intendência Municipal. Assim, no dia 3 de fevereiro de 1883, “prestando homenagem ao mérito de alguns varões ilustres filhos a maior parte dessa província” foram alteradas as nomenclaturas de algumas ruas de Maceió.

O jornal O Orbe, no dia seguinte à aprovação da Lei, informava as alterações. A Rua do Comércio passou a ser a Conselheiro Sinimbú; Rua Boa Vista, Conselheiro Lourenço; Rua Nova de Maceió, Barão de Penedo; Rua do Palácio, Barão de Anadia; Rua do Alecrim, Barão de Maceió; Rua das Verduras, Barão de Atalaia; Rua Augusta, Ladislau Neto; Rua da Alegria, Pedro Paulino; Rua do Macena, Cincinato Pinto; Rua Nova de Jaraguá, Royal; Rua da Cambona, General Hermes e Rua do Jogo, Voluntários da Pátria.

Dessa data em diante, os jornais tratam a Rua do Comércio como “a atual Conselheiro Sinimbu”, ou ao contrário, como “Rua Conselheiro Sinimbu, antiga Rua do Commercio”. Alguns deles simplesmente desconhecem as mudanças e continuam a se referir as ruas da cidade como antes da alteração aprovada pela Câmara.

A homenagem ao Conselheiro Sinimbu não demorou a cair pela força do costume e também porque, em sessão do Conselho da Intendência Municipal, no dia 4 de fevereiro de 1890, o conselheiro Filigonio A. Jucundiano de Araujo aprova uma indicação restituindo o nome original da via, que voltou ser Rua do Commercio.

Nos anos da década de 1920, a principal via da capital foi utilizada novamente para homenagear uma personalidade da vida política do Estado. Desta feita foi o Dr. Rocha Cavalcante. Também não durou muito. A rua estava predestinada pela vontade popular a ser Rua do Comércio.


Rua Do Comercio Nos Anos 20
Rua Do Comercio Nos Anos 20

Equipamentos

Ao meio-dia de 21 de março de 1922, o entroncamento entre a Rua do Comércio e a Rua do Livramento ganhou um equipamento que faria história em Maceió: o Relógio Oficial. Foi o governador Fernandes Lima quem instalou o aparelho adquirido à joalharia carioca A Nacional. O relógio tinha quatro mostradores brancos com ponteiros pretos e foi fixado sobre uma coluna de cimento armado, que logo ficou conhecido como Pombal Oficial.

Na esquina em frente ao Relógio Oficial ficava a Chapelaria Lisboa, que depois viria a ser o Café Ponto Central de Manoel Cupertino, inaugurado no dia 25 de abril de 1931. Foi o ponto de encontro dos intelectuais e empresários durante décadas. O relógio ficou por lá até que o prefeito Álvaro Guedes Nogueira (1935/1936) mandou retirá-lo e entregá-lo à igreja de Nossa Senhora das Graças, na Levada.

No seu local foi erguida uma estrutura que ficou conhecida como Tabuleiro da Baiana, que anos depois deu lugar a um belo poste de iluminação.

Em 1963, o prefeito Sandoval Caju instalou no local a estátua de Mercúrio que estava na Praça Sinimbu desde o início do século XX. Em 1967, Mercúrio, cuja nudez vinha incomodando a alguns poucos conservadores religiosos, perdeu sua aparição pública e foi removido para Associação Comercial, uma doação promovida pelo então prefeito Divaldo Suruagy.

Cinearte No Dia 17 De Maio De 1945
Cinearte No Dia 17 De Maio De 1945

Outro equipamento urbano que marcou época na Rua do Comércio foi o Cinearte, que começou a funcionar ainda nos anos da década de 1920 com o nome de Cine Floriano e depois Cine Capitólio. No dia 9 de julho de 1957, o Cinearte fechou para reforma, só reabrindo no dia 27 de fevereiro de 1959, já com o nome de Cine São Luiz. Tinha poltronas estofadas, ar-condicionado e tela em cinemascope. O filme de reestreia foi Tarde de Mais Para Esquecer, com Cary Grant e Debora Kerr.

Como principal artéria da cidade, a Rua do Comércio, naturalmente também passou a ser o espaço preferido para o carnaval de rua da capital. A partir dos anos 30, os blocos arrastavam multidões para lá, dividindo o espaço com o corso e com as Maratonas Carnavalescas, já nos anos das décadas de 1950 e 1960.

No final dos anos 70, na administração do prefeito Dilton Simões, a Rua do Comércio recebe sua última grande intervenção com a implantação do primeiro trecho do Calçadão, que tirou o trânsito de automóveis, afastando as agências bancárias e definindo a via para uso quase exclusivo para lojas de roupas e eletrodomésticos.