30/07/2017 12h40 | Por: João Pedro da Silva Neto

Cartão postal do Litoral Norte de Maceió, monumento da Sereia completa 54 anos

Inaugurada em 1963, em Riacho Doce, escultura foi idealizada por alagoanos, construída por pernambucanos e inspirada por uma personagem de um conto de fadas dinarmaquês.

Texto de: Pedro Neto*
Monumento da Sereia foi colocada em dezembro de 1963 para abrilhantar a vista de turistas e habitantes da cidade, tornou famosa a praia onde fica (Foto: Itawi Albuquerque)
Monumento da Sereia foi colocada em dezembro de 1963 para abrilhantar a vista de turistas e habitantes da cidade, tornou famosa a praia onde fica
Itawi Albuquerque

Um dos ícones contemporâneos da alagoanidade, a escultura da Sereia, localizada em trecho do Litoral Norte, no bairro de Riacho Doce, é admirada por alagoanos e atração para turistas de todo o país e do mundo quando o assunto é praia em Maceió.

São quatro metros de puro concreto e cimento no formato de uma imponente sereia fixada no topo dos arrecifes de corais da praia. Desde sua construção, o trecho do Litoral do Riacho Doce é conhecido como Praia da Sereia.

Sua instalação em dezembro de 1963 foi um capricho do governo da época. Um marco de celebração aos avanços da pavimentação de vias e estradas que ligavam cidades e levavam progresso à região, como relembra o engenheiro e então secretário de Obras Públicas do Estado, Vinícius Maia Nobre.

Características avantajadas da estátua são marca registrada do paisagista Abelardo Rodrigues. Objetivo é que facilitar a identificação mesmo à distância. (Foto: Itawi Albuquerque)
Características avantajadas da estátua são marca registrada do paisagista Abelardo Rodrigues. Objetivo é que facilitar a identificação mesmo à distância.
Itawi Albuquerque

"Os primeiros quilômetros de vias pavimentadas do Estado foram construídos em 1947, no Governo de Silvestre Péricles. Com mais dois quilômetros construídos da antiga rotatória da Polícia Rodoviária Federal até a Ladeira do Catolé, um estado relativamente pequeno como Alagoas, passou a ser o primeiro em número absoluto de estradas e o terceiro em números relativos, ficando atrás apenas de São Paulo e Rio de Janeiro".

Em 1955, o governador Arnon de Mello continuou a política de criar estradas para ligar os municipios. Foi o ano também que Vinícius ingressou na Comissão de Estradas e Rodagens. Ele também foi secretário de Estado de Saneamento, secretário de Estado de Ação e Obras Públicas, responsável por grandes obras em Alagoas, dirigiu a construção do estádio Rei Pelé, foi professor da Ufal e associado à Adufal.

Entre outubro de 1962 e maio de 1963, quando diretor geral da então Comissão de Estradas de Rodagem (CER), que executava na época, uma vasta programação rodoviária do Governo Luiz Cavalcante. Uma das obras desse programa era a pavimentação da AL-101 Norte, a estrada litorânea.

“Por força do cargo, encontrava-me quase que diariamente com o Major Luiz fiscalizando os serviços que estavam sendo executados entre Riacho Doce e Saúde. O governador admirava muito o trecho da estrada que mais se aproximava da praia e que passava sobre uma duna, e me pediu certa vez, para fazer um mirante nesse lugar”, conta Vinicius. Ele prossegue: “Com poucos recursos que dispúnhamos, achava eu que era um desperdício executar o mirante e fui protelando a sua execução”.

“Em 1963, após ter saído da Direção Geral, estava na CER como Chefe do Laboratório Central, o qual tinha como atribuição o controle de qualidade das obras rodoviárias. Ao passar pela AL-101 em demanda a Ipioca (o trecho entre Riacho Doce e Saúde já estava pavimentado), encontrei-me com o governador em companhia de Abelardo Rodrigues, colecionador de objetos de artes, ilustre pernambucano, que mais tarde, ao falecer, os seus pertences, foram objeto de uma disputa entre o seu Estado e o da Bahia que tentava adquiri-los de seus herdeiros”

“Lembro-me bem das palavras do Governador: “O senhor não quis fazer o mirante, mas agora vou fazê-lo. Apresento-lhe o Abelardo Rodrigues que vai projetá-lo”.Confesso que intimamente me revoltei, pois fui sempre contra a sua construção porque a praia já era bem bonita sem àquele artificio, e, repentinamente respondi-o: “Porque o senhor em vez de um mirante não coloca uma sereia em cima daquelas pedras, ali?” (apontava o lugar no hoje Mirante da Sereia).

O major então replicou: "Boa sugestão! O senhor teve essa idéia agora?" Disse-lhe: "Não. Na entrada do porto de Copenhague, existe uma sereia de bronze. É muito bonita!" (conheci-a de fotografia) O Major virando-se para o Abelardo Rodrigues disse: "Projeto mirante e vamos também fazer a sereia”, conta em texto publicado na Gazeta de Alagoas de Dezembro de 1987.

Estátua de bronze da Dinamarca serviu como inspiração para a criação do monumento alagoano. Na foto, tirada em 85, o engenheiro Vinicius Maia conhece pessoalmente a Sereia.  (Foto: Vinicius Maia)
Estátua de bronze da Dinamarca serviu como inspiração para a criação do monumento alagoano. Na foto, tirada em 85, o engenheiro Vinicius Maia conhece pessoalmente a Sereia.
Vinicius Maia

Inspiração em conto de fadas

A obra que inspirou o engenheiro é conhecida como “A Pequena Sereia” e foi inaugurada em 1913, na capital dinamarquesa Copenhague. Construída toda em bronze, ela fica em uma rocha da baía e representa uma personagem do famoso conto de fadas de Hans Christian Andersen que imaginou um peixe que se enamorou de um príncipe, virou mulher e casou-se com ele. Conta a estória que não viveu feliz pelas saudades que tinha de seu reino e foi castigada virando uma sereia.

Abelardo ficou então carregado de produzir a estátua para abrilhantar a praia maceioense. Ele voltou para Recife, mandou o projeto do mirante e contratou o escultor José Corbiniano Lins, também pernambucano, e nos fins de 1963, chegou, na sede da CER na rua Cincinato Pinto, as partes da sereia.

“Era um dia de sol forte de verão quando fui chamado pelo motorista Miguel "Marta Rocha": "Doutor, venha ver a sereia! Ela tem a bunda da fulana e os peitos da sicrana!" exclamava, referindo-se aos dotes de duas funcionárias, atualmente aposentadas pelo DER. A admiração de todos que acorriam para olhar a sereia sobre a carroceria de um caminhão era o que caracteriza o estilo de Corbiniano, conhecido por mim quando estudei em Recife, na Escola de Belas Artes : o exagero para determinadas partes da escultura a fim de se ter uma melhor percepção, quando de longe”, explica Vinicius.

Em dezembro de 1963 o monumento foi inaugurado na praia, que passou a ser conhecida como Praia da Sereia. Completa, em 2017, 54 anos de existência, tendo passado por algumas reformas por causa de erosões devido à ressaca da maré (a Sereia já chegou a perder a calda algumas vezes) e continua chamando a atenção dos visitantes que param para tomar um sol e apreciar a bela escultura, sem nem imaginar que aqueles quase quatro metros foram construídos em outro estado, com inspiração de outro país para se tornar um dos símbolos da alagoanidade.

*Sob supervisão da editoria